segunda-feira, 10 de abril de 2017

A árvore que Somos...


Sai hoje de um retiro de dez dias. Dez dias de muito trabalho físico e interior. Não sei com honestidade dizer qual dos dois o mais difícil... bem na verdade o físico passará depois de uma boa noite de sono no ninho, já o outro terá efeitos muito mais duradouros. 
Curiosa a força com que o nosso inconsciente se faz sentir. Cada emoção, cada sentimento de dor, a nostalgia da saudade, o sabor amargo da desilusão, a dúvida, todos se manifestam fisicamente. 
Reparo que na quietude da meditação o silêncio fala. 
A agitação abraça-me o corpo todo... e eu deixo. Estou em lotus embora em águas agitadas... e aceito.
É nesta ausência absoluta de movimentos que me apercebo que não tenho ouvido o meu grande mestre, o comandante do meu barco... o meu corpo. 
Permiti que alguns dos meus hóspedes me visitassem durante este retiro e foi muito bom deixá-los habitar-me sem espaços definidos. Senti-los gladiaram entre si a minha atenção e eu com tempo para os arrumar e mediar. Tenho esperança que alguns deles me tenham abandonado para sempre, abrindo a porta a outros, que me trazem novas qualidades para continuar a desbravar caminho.

Todos trazemos connosco memórias e acontecimentos que nos marcam e nos ferem. Uns largamos, outros guardamos bem no fundo de nós. São como raizes de uma árvore, agarram-nos à terra, crescendo na cegueira da escuridão. 
As raizes alimentam-nos e no entanto rasgam-nos, magoam-nos, dilaceraram-nos, matam-nos de alguma forma para nos fixarem ao chão. 
... Por vezes é tão duro criar raízes. Temos tanto para viver, tantas oportunidades para partir, tantos caminhos para seguir sem olhar para trás, tanto por descobrir. Como é bom termos este tempo para nós, para nos apercebermos que ter terra é por vezes o que nos salva e nos trás de volta à realidade. É o que nos permite recomeçar de pé.

A vida é fascinante por tantas coisas. Uma delas é, com certeza, o podermos optar por deixar sair, daquelas raízes escondidas, escuras e desconhecidas, a árvore magnífica e livre que Somos. 
Disse-me o coração, a árvore sustenta o corpo, não a Alma... Penso que ele queria dizer-me que podemos escolher encher a nossa árvore de ramos fortes, cheios de contornos e folhas verdes brilhantes, pintá-la com infinitas flores bonitas e encantadas. 
As raízes dão-nos a benção de renascer e o poder de Viver e a árvore é muito mais do que apenas aquilo que nos agarra à terra.

 A mãe terra suporta-nos e alimenta-nos, não nos aprisiona, é uma parte de nós. Somos livres de procurar a luz e de querer sentir o vento, a chuva e o calor. Somos livres de olhar para cima e desenhar as nuvens. Temos uma força independente que nos liga também ao céu e ao sol e nessa dualidade perfeita podemos transformar a nossa árvore num Ser livre, forte, corajoso, poderoso. 

Carl Jung disse: ” qualquer árvore que queira tocar os céus precisa de ter raízes tão profundas a ponto de tocar os infernos”.

...É amando as nossas raízes mais profundas e negras, que nos conseguimos transformar na árvore mais forte e mais bonita... 

sábado, 25 de junho de 2016

Estrelas a rodopiar no bosque.

Aqui deitada no chão, vejo as nuvens a fugirem da noite e a noite a engolir as nuvens. As árvores tombam e levantam, tombam e levantam infinitas vezes numa dança que dura até que o vento pare. 
Aos poucos, o negro profundo do universo domina a luz. O azul vai-se perdendo do céu e foge para dentro do outro lado do mundo, para onde foi também o Sol. Enquanto isso, a Lua nasce nas minhas costas, não sei exatamente aonde e apesar da curiosidade prefiro ficar aqui, cega da sua luz, cega de pensamentos, de olhos bem abertos para o azul que ficou negro... Desta vez não quero fechá-los...
A terra sobe-me pelas veias e ao mesmo tempo escapa-me por entre os dedos abertos contra o chão. Sinto arrepios de frio enquanto ela me envolve e me energiza. Está em todos os lados, nos meus cabelos, no meu peito, no meu ventre. Imagino as minhas mãos perfurarem a sua crosta como raízes. Sinto-a húmida como as palavras que ecoam em solavancos acima de mim. Alguém as diz. Por vezes tocam-me, por vezes não as oiço, mas gosto que elas estejam por ali...
Deixo-me estar assim, morta para os outros e a ferver de sentimentos por dentro. Vejo tudo e sinto tudo e não me movo. Não quero. Escolho render-me, segura pelas guardiãs que continuam a tombar de um lado para o outro, porque o vento não acabou.
Quando em obediência à voz que nos guia, me levanto cheia de toda esta beleza, dou com os pirilampos que voam em soluços luminosos à minha volta. Por momentos imaginei que todas as estrelas do universo tinham vindo para dançar comigo. Só pode ser magia, pensei. Estrelas a rodopiar no bosque.
E nesse instante há uma mão que me toca, um braço que me envolve, um olhar que me foca. E quis tanto partilhar aquele sentimento que me expandia cada vez mais, que me fundi num abraço, primeiro a dois, depois a três, depois a quatro e depois perdi a conta. Já não era apenas eu. Éramos... Éramos esta corrente de vida.
E assim senti a nossa cerimónia secreta de adoração à mudança de estações. De adoração ao Sol e à Lua. De adoração à união do Ser com o Outro. A minha alma sintonizada com o Todo, porque senti o Todo em mim.

sábado, 4 de junho de 2016

Fragilidade


Fragilidade...
Quando sinto tudo através do amor, vem uma grande sensação de abertura, uma vibração que se expande dentro de mim e explode para fora, sem deixar de estar cá dentro. 
Sinto os braços esticarem e a ficarem braços que abraçam tudo o que a minha vista alcança, mesmo que tenha os olhos fechados. 
Sinto o peito tão grande que caberiam em mim todos os corações que eu quisesse, mais as estrelas, a lua e nem o sol rebentaria comigo.
E quanto mais fico nesta vibração amorosa, mais sinto esta sensação de choque eléctrico que me endireita os cabelos na direção do céu. O ar quase que falta nos pulmões e a boca abre-se de espanto, na busca de respirar com mais força.
Tenho agora mil corpos que querem ir a todo o lado, que são as árvores, as nuvens, os pássaros, a chuva que cai e inunda tudo, o calor, o frio. Sinto tudo.
Vivo absolutamente no Presente.
E nesta espiral de sentimentos, de repente estou tão, tão, tão  aberta que não poderia estar mais... frágil. 
Estou a sentir tudo pelo amor e o que ele me trás é fragilidade!
Sinto medo? Espanto? Um aperto?... Da expansão sou sugada para um espaço comprimido, tão comprimido que nem o sinto...
A inevitabilidade do amor é a fragilidade. E esta só existe no amor. Que descoberta assombrosa esta.
... E é isto a vida? Esta abertura sem espaço. Esta dimensão misteriosa que me puxa e me coloca num abismo que me atrai ao invés de me assustar. Esta medida, este comprimento, esta largura que me une, que me isola. Esta equação que me aumenta e me desintegra no mesmo segundo. Esta grandeza sem proporções e que na sua transcendência me condiciona.
Quando sinto tudo através do amor, sou fragilidade em carne viva, sem pele ou proteção. Assim é o amor... que deus me valha!

sábado, 17 de outubro de 2015

Homenagem a algo que me transforma...

Quando entramos na sala entramos descalços. E aos poucos também nos vamos desnudando. Desnudando do trabalho, do que ainda ficou por fazer, da azáfama, da poluição sonora sempre a zumbir à nossa volta, do telemóvel, da raiva, das frustrações... do cansaço... E aos poucos começa. Começa a danza...
Danzar descalça. Viver desde o cumulo da liberdade até ao extremo de nos sentirmos encurralados nos nossos próprios medos... e é a danzar que lhes damos baile.
As vivências são todas aquelas que temos direito e também as que não temos. O nosso processo é de todos, pois também é no Outro que nos encontramos. As emoções rodopiam em espirais lentas e nesse giro centrado voamos e ascendemos até ao mais alto de nós.



Danzar descalça e sentir-me nua... nua de pele, de contornos, de preconceitos, de ideias, de membros, de julgamentos. Agarrar o Outro de olhos fechados. Agarrar o Outro de olhos nos olhos. Aqui não há diferença física, há respeito pelos órgãos femininos e masculinos. Sou e sinto-me sensual. Sou e sinto-me sensível. Tocar e ser tocada no mais fundo do meu Ser, numa Sexualidade sagrada e sem tabus.
Danzar descalça começando de Dentro para o todo, como se o todo fosse Eu. Ir de copo cheio, livre e sem limites e voltar cheia daquela vibração expansiva do universo divino. Sentir-me sublime. O meu espírito em exaltação, o meu corpo solto num abraço planetário e a minha mente lúcida e cheia de vontade. A Transcendência liberta-nos de fronteiras.
Danzar descalça com tudo. Com as mãos, com as pernas, com os dois pés desencontrados e encontrando-se, cabelos no ar com os caracóis a voar despenteados para trás. Sou árvore , Sou lua, Sou um oceano, sinto o vento a soprar dentro de mim. Percorro enérgica a polaridade emocional e com o corpo, a mente e a minha natureza orgânica vou... vou num segundo intemporal, ardendo em Vitalidade e transformação.
Danzar descalça desenhando as ideias no chão e no ar, com os dedos todos, com os tornozelos, com o nariz, com as orelhas e as coxas. Colorir o tecto com as lágrimas que me caiem do pensamento. Ouvir uma orquestra com mil músicos escondidos debaixo de guarda chuvas com o céu pintado no resguardo. Imaginar que saltamos das janelas a voar, como se a gravidade fosse apenas uma invenção da nossa Criatividade.
Danzar descalça no meio de uma tempestade de emoções, sem precisar de gabardina ou carapuça, sem me esconder ou proteger, porque o único risco que corro é escorregar nos braços do Outro. Aqui o meu corpo serve de palco aos meus sentimentos, pelos braços sai a alegria, pelo peito o amor, pelas mãos a amizade, pelo olhar a verdade. Num ímpeto contínuo percorro a sala descalça e lanço toda a minha Afectividade.
E assim a danzar descalços, depois do êxtase, do apaziguamento, depois de termos permitido que o corpo seja realmente um instrumento e a casa das nossas emoções, encerramos as odes numa roda lunar ...ou solar...
bem integrados.
 Claro que já perceberam que não estou a falar apenas de uma aula de biodanza. A aula é só uma faísca. Acontece que é uma faísca que acende a lareira... E a minha fica bem acesa depois de danzar :)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Olhar a Intimidade...

 foto by Laycos

Imbuída do espírito de um festival de terapias, música yoga e meditação, ainda num estado suspenso no tempo, espero no carro por um amigo a quem vou dar boleia de volta para a civilização. Depois de carregarmos tudo e enchermos a bagageira, ele decidiu tomar um banho. Um banho que o vai limpar da poeira. Poeira da terra seca que se entranha na pele e se agarra a todos os fios de cabelo num tentativa de subir mais alto e não assentar. 
Deste banho sai o pó e fica tudo aquilo que nos foi enchendo de tantas emoções. Fica a energia que fomos ganhando com todos os abraços, todas as trocas intensas de olhares, com todas as partilhas e conversas cheias de propósito. Esta energia que nos conecta a todos e nos faz sentir realmente ligados.
Este banho também não vai tirar a vibração de todas as músicas ouvidas e dançadas, puladas até à exaustão, corridas com os braços no ar, suadas, estendidas até ao infinito. Não tira do corpo a memória de todos os sorrisos, de todos os cheiros, da textura de mãos desconhecidas, do toque permitido, do calor consentido. 
E enquanto espero, observo. Dou por mim a vê-lo entrar na zona de duche aberto e a despir-se. Tirou todas as peças de roupa como se não lhe pertencessem, pousou-as num banco corrido de madeira, escolheu um lugar vazio e pressionou a torneira. A água caiu em jacto abundante sobre o seu corpo, molhando-o por completo, quase instantaneamente. Como num ritual decorado o liquido escorre exactamente para onde deve cair, libertando a pele do peso extra e que não faz falta. A brisa levava as gotas minúsculas que saltavam e voavam envolvendo-o de uma névoa livre e dispersa que dançava em ondas à sua volta. 
Há uma grande diferença entre olhar uma pessoa que conheces tomar banho e ver outra que não conheces de lado nenhum. Esta vês de uma forma rápida, de lado, enquanto segues o teu caminho... a outra sentes...
Eu estava parada e parei também o momento ficando assim, só a olhar, a contar todos os seus movimentos, aumentando os segundos para que todos os gestos fossem contemplados.
Depois de ter recebido a água, pegou no sabonete e passou-o em todos os cantos da sua pele. E chegou a todos os poros, a todos os órgãos que se abriam tolerantes à força dos seus gestos fortes e sem nexo. E se para mim a imagem decorria em camara lenta, a realidade é que ele usava gestos muito abruptos enquanto espalhava o sabão, cujo perfume eu nao sentia mas imaginava... Como se de repente estivéssemos em dimensões diferentes. A dele corria rápido e a minha retardava-se em lapsos de tempo demorados. 
Dei por mim a pensar que tomar banho é um momento muito intimo e mesmo não tendo vergonha da nudez, da minha ou da dele neste caso, optei sempre por tomar banho nos duches fechados, pois gosto de partilhar a minha intimidade apenas com quem quero e não com quem passa.
Por outro lado, embora só eu estivesse a sentir aquela intimidade com uma pessoa quase estranha, no meio de tantas outras mais estranhas ainda e que passavam indiferentes, fiquei feliz por ele ter decidido tomar o seu banho sem pudor, num ponto em que eu o pude ficar a observar. 
Eu estava ali a presenciar um momento muito particular e privado que embora não tivesse sido consentido, também não havia sido proibido. E por algum motivo eu optei por viver esse momento. Por alguma razão fiquei parada a olhar um quase estranho a tomar banho, atraída pela sua forma desavergonhada, apressada e inconsequente de se livrar do peso da poeira e deixar mais espaço para a vibração de todos os momentos intensos que havíamos vivido no festival.
E porque razão vos conto isto? Porque há muito tempo que não olhava realmente alguém tomar banho. Ver com a atenção que se tem quando se olha. E é muito bonito. Nós somos tão bonitos. 
Aquele instante foi quase como um passe de magia que criei, como se tivesse aparecido uma porta secreta e eu sem entrar espreitei pela fechadura sem ninguém se aperceber e fiquei a ver o que mais ninguém via.
E é nesta abundância de liberdade de estar, de observar o momento, de interpretar com o coração, com o corpo, com a imaginação, que me apeteceu gravar aquele momento, aqui e agora.
Que me perdoem os que não acreditam que a intimidade é feita de pequenos momentos, que a beleza que retiramos das experiências é criativa e que a liberdade de a sentirmos de forma única é um bálsamo para o nosso coração. 
Este banho foi feito no céu...

sexta-feira, 15 de maio de 2015

E juntos inventaram uma nova amizade

Bebo um copo sozinha em homenagem a uma grande companhia. E brindo levantando o copo, embora apenas na minha imaginação, cheia de vontade de encontrar ao alto o outro copo que neste momento me faz falta.
Adele e Peixoto conheceram-se num dia banal de trabalho e desde então muitas peças se foram naturalmente encaixando, num puzzle sem contornos certos. E assim é que eles gostavam de estar, sem contornos, sem preconceitos, sem rodeios, sem subterfúgios, sem tabus, sem tretas...
Claramente numa amizade assim, em que se partilha tudo sem qualquer ciência é inevitável que a cumplicidade entre ambos se expanda. E assim aconteceu. Nenhum tinha segredos para o outro. 
Curioso que até para o companheiro temos algumas reservas, neste caso entre eles essas defesas caíram por terra, não encontraram raízes... As raízes nem sempre são boas... Às vezes num relacionamento crescem raízes venenosas, mas entre eles nada disso aconteceu. Eles não tinham um relacionamento amoroso. E isso era delicioso.
Adele era uma mulher bonita, usava uma melena castanha solta em cachos largos e redondos, era alta e magra. Usava vestidos de organza que se enrolavam nas suas pernas e deixavam transparecer os seus contornos femininos e quando caminhava vários olhares caminhavam com ela.
O seu percurso de vida e a influência dos seus progenitores transformaram-na num ser muito determinado e sem grandes medos. Aliás, mesmo puxando pela cabeça não conseguia lembrar-se dos medos que não tinha. Ela só queria viver todos os dias, todas as alegrias que pudesse. Como se tivesse ganho o totoloto das alegrias e por mais que vivesse nunca iria ter tempo para as gastar todas. Ainda por cima estava num ano bom, pois a própria vida oferecia-lhe muitos motivos para rir, o que ela agradecia, celebrava e acumulava. Mas claro que não podia sobreviver apenas desta dieta, também sentia outras coisas. Coisas que partilhava muito com o seu amigo e companheiro Peixoto.
Peixoto, por seu lado era também uma alma cheia de vontade de se agarrar àquilo que queria viver. Muito intenso e ao mesmo tempo tão admiravelmente tranquilo. Não se arrependia de nada do que fazia e atirava-se cheio de coragem do alto das suas pernas para o meio da arena, com uma auto-estima tão grande, que até a fera que o enfrentava pensava duas vezes antes de investir.
Um dia foram os dois dançar. Embriagados pela música, pelo calor de todos os corpos sem braços que os envolviam, pela penumbra que os guiava um para o outro, beijaram-se. Beijaram-se de boca aberta e olhos fechados. Beijaram-se com as mãos escondidas nas costas um do outro. Beijaram-se sem dizer palavras, sem respirar. Apenas as línguas se trocaram e os lábios disseram silenciosos o que a música deixou de tocar. Beijaram-se como uma primeira vez, mas sem medos ou nervosismos.
E enquanto eram empurrados pelos corpos sem braços, o calor tornava-se incontrolável e almareados pela vontade que crescia perderam a noção do espaço que depressa abandonaram, sedentos de viver aquele desejo com todos os braços que tinham e que naquele momento não chegavam. Desamarraram por uma noite todos os laços que os uniam àquela amizade e durante horas percorreram o desconhecido, esmagando-se mutuamente. Tentavam a todo o custo esconder todos os seus membros nos espaços nunca antes sentidos do corpo um do outro. Criaram naquele momento novas peças de um puzzle mais recente, cheio de contornos novos e compuseram-no, nus na vertical, encostados à janela exposta à indiscrição dos outros.
Também aqui descobriram uma cumplicidade até agora ignorada. No corpo um do outro foram ingratos para com aquela amizade que os unia... Ou assim pensaria quem não os conhecia, quem não os percebia. Na realidade, quem os invejaria caso percebesse...
No dia seguinte Peixoto quis vê-la. Dizer-lhe com os olhos que a sua alma queria vivê-la. Adele no entanto quis ficar sozinha, deixar-se absorver com honestidade pelo que estava a sentir. E sentiu no corpo um nervoso inquietante. Tentou perceber porquê. E percebeu o seguinte, aquela amizade estava acima do momento que segundo ela fora único e ao mesmo tempo irrepetível. Era isso que ela sentia. 
Uma coisa é fazermos amor com um desconhecido ou mal conhecido, outra muito diferente é fazer amor com alguém que adoramos, respeitamos e por quem temos uma enorme afeição e amizade. 
Peixoto porém, sentia de outra maneira. Na sua qualidade masculina aquele desejo não se saciava numa só vez e no outro dia ele apareceu e percebia-se que ao contrário dela, queria repetir. Ficou decepcionado, embora tenha percebido os motivos de Adele. 
Os contornos da amizade mantinham-se inabaláveis. E por isso mesmo Peixoto tinha o à vontade para lhe dizer que a desejava, que queria voltar a esconder-se nos cantos fora da amizade. Queria voltar a ser ingrato para com esta e ao mesmo tempo queria liberdade para gozar este outro sentimento. Peixoto situava-se no meio destas duas polaridades num equilibrio muito confortável. Já Adele ainda não tinha encontrado esse equilíbrio.
Assim notou-se algum constrangimento entre os dois e embora depressa se ultrapassasse com pequenos grandes esclarecimentos, aquele permanecia latente.
Adele, sempre directa disse-lhe que ele estava abatido e ele disse-lhe que não e insistiu em manifestar-lhe o seu desejo em esconder-se dentro dela. E perguntou-lhe do que tinha ela medo. E dentro da mesma sinceridade de sempre ela respondeu: - tenho medo de não me apaixonar...
Ele olhou para ela e riu muito, dizendo-lhe que era disso que ele gostava nela, aquela sinceridade crua e de confiança. Agora estamos a conversar - dizia ele a sorrir - agora estamos a conversar.
 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O salvador Salgado...

 Fui ver o documentário sobre a vida de Sebastião Salgado realizado pelo seu próprio filho Juliano Ribeiro Salgado e o famoso Wim Mertens que eu adoro, nomeado para os Óscares na categoria de melhor documentário de 2015. Na realidade não é só a vida de um grande fotógrafo que é retratada neste filme. O trabalho que este Senhor desenvolveu durante anos transforma-se agora na história da humanidade. Dá-se uma simbiose perfeita da vida do grande mestre da fotografia com o que tem sido o mundo nas últimas quatro décadas. Como se a vida de Salgado se misturasse com todos os acontecimentos que captou e nos afectaram nestes últimos quarenta anos, por serem também a história de cada um de nós. Todos nós vivemos de forma mais ou menos directa tudo o que foi revelado através da objectiva de Sebastião. E olhar agora todas as suas fotografias é comprovar que não somos diferentes daquelas pessoas que ele paralisou para a eternidade a preto e branco. Todas elas e nós sentimos dor, todas elas e nós choramos, todas elas e nós morremos, todas elas e nós imigramos em busca de uma vida melhor, todas elas vivem as mesmas emoções que todos nós. Durante a sessão muitas vezes me apeteceu gritar aos senhores da guerra: - A MORTE FICA-VOS TÃO BEM!!!
O tempo passou por todos e agora que Sebastião tornou esses momentos intemporais, temos a possibilidade de os viver e reviver. E todas as pessoas que sobrevivem hoje nestas fotografias merecem isso. É a homenagem que lhes podemos fazer. Termos acesso ao tempo dos Outros é um privilégio. 
Nunca virei a cara como fazia com as imagens que passavam no telejornal. Deixei as lágrimas virem, porque apesar de tristes elas também celebram a vida.
Neste filme pude aperceber-me que a obra deste homem tem uma repercussão que chega a todo o planeta, como o ar, como a chuva, como o vento... Felizmente... E a água que faltou a tanta gente, cai agora sobre as nossas cabeças. O calor de todas as bombas que rebentaram, a força de todas as balas fatais, a temperatura infernal de todos os fogos destruidores ruboriza-nos as faces. E do outro lado do pano, as cores de todo o esplendor da natureza saltam-nos dos olhos, pintalgando na nossa imaginação o preto e branco de Salgado.
Este Senhor com a ajuda da sua linda esposa Lélia fotografaram o mundo e trouxeram-nos toda a verdade. Sebastião Salgado não é apenas um Homem, é um Avatar que veio à terra com a missão de nos fazer ver e dar a saber das desgraças e da miséria humana.
Como adoraria massajar um homem assim. Sentir no seu corpo todos os mortos, todas as almas, todos os animais, todos os barcos naufragados, as famílias de pessoas, as famílias de gorilas, todas as mulheres, todos os filhos. Ler os olhares de espanto, de medo. Ouvir as vozes das crianças a brincar, ouvir os mortos, ouvir os pássaros. Aliviá-lo das lembranças mais tristes e desfazer a dor que ainda teima em vir incomodando o seu sono.


Salgado fotografa uma árvore com a mesma dignidade com que fotografa uma pessoa. Foi a fotografar a vida selvagem que aprendeu o que significa esperar. Esperar para celebrar a captura do momento perfeito. 
Uma baleia ensinou-lhe em alto mar que o peso das suas toneladas pode ser mais suave que uma pena quando nos movemos por amor. E essa baleia pousou para a sua objectiva, como se esse fosse exactamente o seu propósito em vir à superfície naquele preciso momento. E aqui nasceu mais uma fotografia de inquestionável beleza. 
Temos de sair detrás dos nossos escudos, de dentro das nossas conchas e saltar para o mundo. Honrar todos os dias um pouco do que este avatar e outros fizeram e fazem para nos alertar, tornando-nos seres humanos cada vez melhores. Salgado mostra-nos o pior e o melhor de nós e confessa inegavelmente perante o mundo que somos uma espécie terrível, capaz de infligir o maior dos sofrimentos a outro ser igual... e no entanto, ao mesmo tempo, somos a única esperança do nosso planeta.
Descobri algo inusitado neste filme, apercebi-me que apesar de ter fé em nós como humanos, no fundo não acreditava que o planeta fosse sobreviver por muitos anos, mesmos por todos aqueles que nunca irei contar. E hoje este homem fez-me acreditar que todos podemos sobreviver. Este homem deu-me esperança, porque se alguém que já viu o que ele testemunhou, acredita, então há esperança.
Há esperança.